Ilana Eleá e seus Encontros de Neve, Sol e Infância

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Ilana e sua Biblioteca Casinha de Campo das Crianças (Foto Arquivo Pessoal)

Por José Pedro S. Martins

As ruas de Florença, onde mora a Divina Beleza. No dia 18 de outubro, a Libreria Todo Mundo, cantinho especial – de livros, bar e teatro – na cidade da cultura, acolherá a apresentação da edição italiana de “Encontros de Neve e Sol”, da brasileira Ilana Eleá. Momento especial para a autora, que há muito vive fora do seu país com destacada carreira acadêmica e, agora, cada vez mais imersa no mundo da literatura.

“Encontros de Neve e Sol”, uma “autoficção inspirada na minha saída do Rio de Janeiro até Estocolmo”, foi publicado originalmente como e-book pela @e-galáxia e agora também está disponível na versão impressa pela editora italiana Capire Edizioni.  “Eu passaria a escrever na chuva cinza e debaixo de neve”, conta uma emocionada Ilana para a revista Pé de moleque, sobre como nas terras nórdicas, das sagas tão importantes para o desenvolvimento da cultura literária, foi levada a se aprofundar no fazer poético, uma vocação, um impulso, que cultiva desde o contato mais íntimo que teve com a voz poderosa de Fernando Pessoa.

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O convite para o lançamento em Florença

Mas a paixão pela literatura transborda em Ilana e não se limita ao prazer da escrita. Nessa conversa ela detalha como foi o processo que levou a idealizar e estruturar, no jardim de sua casa, uma biblioteca infantil – a Bibliotek Barnstugan (Biblioteca Casinha de Campo das Crianças, em português). O projeto teve sucesso imediato e a iniciativa recebeu importante prêmio local de cultura, o Bättre Stadsdel 2018. Ela nota que desde o início a ideia não foi apenas contribuir com a ampliação do acesso das crianças aos livros, mas a de apresentar livros de qualidade, após a devida curadoria.

Assim a brasileira Ilana Eleá cultiva o calor dos livros, em uma comunhão de afetos, pelas suas andanças. Aqui, ela ainda comenta o seu trabalho de pesquisa em mídia e juventude e a relevância de políticas públicas para ampliar o gosto das crianças pela leitura. Ela aprecia esse potencial no jardim de casa, onde projeta novos horizontes.

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Conto real: biblioteca infantil no jardim de casa (Foto Ilana Eleá)

Pé de moleque  – Comente um pouco sobre sua trajetória poética até chegar aos Encontros de neve e sol e à Suécia. O que a mudança de países, de referências, impactou em sua poesia?

Ilana Eleá – Meu contato mais intenso com a poesia foi tardio e impactante. Eu estava no Brasil, no primeiro ano do curso de Pedagogia quando conheci Diana Mandelert, uma leitora ávida, irrequieta, que sabia versos lindíssimos de cor. Foi ela quem sugeriu ao nosso grupo que montássemos uma apresentação tendo Fernando Pessoa como motivo e bússola, como convite ao voo literário. Lemos primeiro Tabacaria, aquele livro pequenino, que cabe no bolso, ainda que a ventania fosse tremenda.  Lembro de ter ficado assustada com a força dos poemas do Pessoa e pela claridade dos sentimentos dentro dos versos. A empolgação fora tamanha que fizemos camisetas do poeta português e recitamos suas poesias à luz de lanternas em uma das salas de aula da PUC-Rio. Dali em diante a poesia de Fernando Pessoa me atravessaria o corpo  (aprendi alguns de seus poemas também de cor), e sentia como se esse autor me tivesse dado outros pares de olhos, além de uma lamparina para enxergar melhor o que eu sentia.

A grandiosidade de Pessoa intimidou a minha escrita e só fui escrever o primeiro poema mais de uma década depois, de forma muito despretensiosa. Estava já morando na Suécia, tomada pela beleza e reflexões sobre ter terminado o ciclo de 1 ano e 1 mês de amamentação da nossa filha caçula Liv quando escrevi e gravei em vídeo a leitura do poema em rascunho “Ao momento”. Logo depois a tradução para o sueco fora feita pela Ulla Gabrielsson, o que me deu coragem para continuar escrevendo e mostrando aos amigos e pelas redes sociais o que passaria a sair do pulso.

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O prêmio que Ilana recebeu por sua iniciativa (Foto Ilana Eleá)

“Encontros de Neve e Sol” foi escrito em (momentos de) prosa poética. O livro é uma autoficção inspirada na minha saída do Rio de Janeiro até Estocolmo. As buscas pelo amor e encontros profundos com o que seria o outro e com o que eu sabia ser eu mesma deixaria um corte na língua e a identidade escorregadia como o gelo. O estranhamento cultural estava sendo tamanho que apelei à forma de diário para encontrar companhia na minha própria língua, uma forma de agarrar o que tinha no labirinto que se formava em uma tentativa de aquecer o que pareciam mosaicos de mim, uma Ilana ainda sem idioma, retraindo os gestos, vivendo o espanto de perceber o silêncio nos rostos civilizados dos suecos, os sentimentos a chaves nos espaços públicos: brincavam de se esconder?

Foi na página no Facebook “Um poema nórdico ao dia”, organizada pelo tradutor e editor Luciano Dutra,  que ouvi o rumor das portas da poesia nórdica sendo escancaradas, abrindo novos espaços, finalmente de identificação cultural, dentro de mim. Nas doses diárias de poesia traduzida que a página oferece, fui hipnotizada pelos versos das poetas Edith Södergrän, Bodil Malmsten, Tove Ditlevsen, Karin Boye. Um bote ao mar com respostas em garrafas, os sentimentos nórdicos estavam todos ali na escrita delas e o tom dessas mulheres seria uma nova casa, um caminho em comum. Fui atrás dessa veracidade certeira, da melancolia que atravessa os bosques e as cinzas do céu, fui sorvendo o polo norte para dentro das veias, abaixando a voz. Eu passaria a escrever na chuva cinza e debaixo de neve.

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Reunião no jardim, de flores, árvores e livros (Foto Ilana Eleá)

Pé de moleque – Você tem trabalhado em pesquisa relacionada a mídia e juventude e infância. Como você avalia o impacto das novas mídias, cada vez mais rápidas e vorazes, na vida das crianças e dos jovens? Essa comunicação fragmentada, muitas vezes superficial, afeta o desenvolvimento integral? Ou a questão é como usar a educação no preparo para esse mundo novo?

Ilana Eleá – Fiz pedagogia, mestrado e doutorado em Educação na PUC-Rio, além de curso de extensão em Mídia-Educação na Università Cattolica di Milano. A participação em grupos de pesquisa sobre juventude e mídia foi contínua desde a graduação. Minha experiência durante o período em que trabalhei como coordenadora científica na The International Clearinghouse on Children, Youth and Media, na Universidade de Gotemburgo, Suécia, aprofundou meu interesse e questões de pesquisa, oferecendo oportunidades de contato com resultados interessantes de diferentes partes do globo.

O tema infância, juventude e mídia é realmente fascinante e fazer estudos e propostas para um contexto de constante mudanças traz desafios mas é fundamental. Particularmente acredito e defendo muitas das abordagens sugeridas pelo campo da Mídia-Educação (ou Media Education, Media Literacy ou Media and Information Literacy, se quisermos os termos em inglês). Esse campo combina resultados de pesquisas que analisam os usos, apropriações e significados que crianças e jovens fazem da mídia em seus cotidianos; propõe o estudo e análise, pelos próprios jovens, tanto dos seus espaços midiáticos preferidos como de textos e notícias contemporâneas sob uma perspectiva curiosa, comparativa, analítica e crítica; defende que a produção de mídia pelos alunos dentro do currículo escolar seja garantida.

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O cardápio de opções, após cuidadosa curadoria (Foto Ilana Eleá)

Para a Mídia-Educação, políticas de regulamentação da mídia (e de comerciais para crianças) assim como a garantia de liberdade de expressão e liberdade de imprensa tem o seu peso em democracias. Políticas públicas e articulações da sociedade civil são agentes complementares para que a responsabilidade pela educação para a mídia (e para o mundo) não fique restrita às famílias e às escolas, mas que inclua a sociedade como um todo.

Também considero muito importante a difusão de resultados de pesquisas recentes (oriundas dos campos da psicologia, media studies, estudos culturais, estudos feministas, new literacy studies, estudos de gênero)  sobre as possibilidades e riscos que o uso de mídias digitais acarreta. Quando agentes de Mídia-Educação abracam a teoria crítica em sua pedagogia, a voz de grupos marginalizados e a crítica aos discursos privilegiados ganham espaço, passando a fazer parte das questões que alunos colocarão para si mesmos e para a sociedade. Alunos e professores/educadores discutem em conjunto sobre como diferentes grupos são mediados por imagens, filmes, “stories” e levantam debates (e exercícios de auto-análise) sobre como identidades são formadas tanto por experiências individuais como por fenômenos globais. Pensar na formação de identidades via a intersecção de ideias e representações de gênero, cor da pele, classe, necessidades especiais, orientação sexual, peso e idade passa a ser uma ferramenta riquíssima e poderosa, uma nova forma de interpretar o mundo e exigir por direitos e sob esse ponto de vista, me sinto muito otimista.

É preciso esforço para combinar espaços online e offline para a vida assoprar o que precisa; combinar corações do celular com abraços longos ao vivo; considerar a moderação do uso de telas no cotidiano como uma forma de afeto a si mesmo; brincar ao ar livre; ler (também) livros em papel, seja em voz alta ou baixa, sozinho ou acompanhado; aprender lindas poesias de cor, nunca esquecer de dançar (mesmo em pensamento), olhar nos olhos de quem fala, não silenciar para falta de representatividades, sonhar. Se lembrarmos às crianças e jovens que precisamos aprender, pensar e sermos criativos para receber os dias e as noites, o convite em algum ponto pode passar a ser irrecusável. Vale o empenho.

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O contato desde cedo com o livro, essencial para o desenvolvimento integral (Foto Ilana Eleá)

Pé de moleque – Como nasceu a ideia da Barnstugan? Como ela funciona, seus tempos e espaços? Como o prêmio que você recebeu tem impulsionado a iniciativa?

Ilana Eleá – Moramos em Mälarhöjden, um bairro tranquilo no subúrbio de Estocolmo, característico por suas casas de madeira dos anos 20 e amplos jardins. Observei que muitos dos lares com crianças nesse bairro contavam com um  pula-pula, uma casinha de brincar, balanços, vez ou outra uma casinha em árvore, ou uma caixa de areia com pás e baldinhos.  Há macieiras e frutos de bosque nos jardins e o cenário é idílico, harmônico e tranquilo.

Tive então um devaneio literário. Ao invés de construir (mais uma) casinha de brincar no nosso quintal, pensei  na criação de uma biblioteca infantil aberta ao público no jardim de casa. Eu faria o café e o bolo, leríamos poesia, trocaríamos leituras, ouviríamos música. Todo o material seria manuscrito, como o cartão de empréstimo e as fichas de leitura – e os adesivos seriam distribuídos um a um pela “bibliotecária” que vos escreve, atenta em ouvir semanalmente o que as crianças acharam das suas leituras. Nesse quintal, pais e mães leriam em voz alta e as crianças com mais idade leriam para as menores. Essa seria uma oportunidade de transformar o nosso quintal em um espaço literário, uma forma de encantar a leitura para além do espaço privado, em nome de um maior alcance e interação social. A especificidade da biblioteca não seria apenas promover acesso aos livros, mas um toque de curadoria e interação, mediação de qualidade para a formação dos pequenos leitores. Como contei a jornalista Claudia Walin para o programa Radio Franca Brasil, “A proposta da biblioteca é oferecer um espaço de convivência literária aqui no bairro. Temos atividades semanais, e nosso acervo é diversificado. Mas o enfoque é claro: livros de literatura infantil que tenham uma linguagem poética, que sejam ricos em metáforas, belamente ilustrados. E livros que abordem questões existencialistas, porque perguntas sobre a existência são fundamentais”.

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A bibliotecária Ilana e seu público atento (Foto Acervo Pessoal)

Pé de moleque – Literatura infantil, leitura para crianças. Quais tendências você identifica nesse universo cheio de possibilidades? E como prosseguir o contato entre crianças e livros em uma sociedade cada vez mais tecnológica?

ilana Eleá – Estocolmo acabou de sediar agora em agosto o IRSCL[1] 2019, um congresso internacional interessantíssimo sobre literatura infantil e notícias sobre tendências tem sido amplamente divulgadas. As pesquisas recentes têm sido claras: faz diferença ler com as crianças diariamente, faz diferença sermos adultos leitores no cotidiano e em nossos lares, faz diferença a visita e empréstimo de livros nas bibliotecas, assim como faz diferença qual formato de livro escolhemos para o momento de leitura com as crianças.  Na Suécia, por exemplo, as livrarias físicas estão diminuindo, enquanto as assinaturas digitais para acesso a audiolivros, aumentando. O desafio está posto: se a pluralidade de formatos para o livro em algum momento passar a não ser garantida; se o formato impresso passar a perder espaço; tipos de leitura mais fáceis serão priorizados, como audiolivros – o que pode significar uma considerável perda de diversidade e complexidade nos textos e livros escolhidos.

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A música sempre presente, como também acontecerá a apresentação de “Encontros de Neve e Sol” em Florença (Foto Acervo Pessoal)

Pesquisa recente desenvolvida pela Universidade de Michigan[2] investigou  famílias e hábitos de leitura e ao comentar resultados, a pesquisadora Tiffany Munzer explica ter descoberto claramente que as crianças e os pais interagiam mais uns com os outros quando liam livros físicos, e a interação era de uma qualidade superior. E quando os pais lêem e-books com seus filhos, eles fazem menos perguntas. Pode ser em parte relacionado a algumas das animações e efeitos sonoros incluídos nos e-books, e que, por assim dizer, impede que os pais se envolvam da mesma forma que ao ler livros físicos, mas o ponto que fica claro é: não importa quão tecnológica a sociedade esteja: garantir espaços para a leitura em voz alta, o manuseio do livro físico e para a interação entre um adulto leitor com a criança continua sendo irresistível e altamente recomendado.

E sobre políticas públicas para a formação de crianças leitoras, até suspiro. Os programas suecos[3] são maravilhosos e começam desde cedo: no Bokstart, por exemplo, bebês recém-nascidos são entendidos como leitores e há convite  para os pais participarem de atividades na biblioteca mais próxima, além do Estado oferecer um vale-livro com a primeira antologia das crianças para ser retirada gratuitamente. Uma maravilha!

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O que tem essa caixinha de correio? O futuro! (Foto Ilana Eleá)

[1] Biennial Congress of the International Research Society for Children’s Literature.

[2] https://www.aappublications.org/news/2019/03/25/electronicbooks032519

[3] https://www.regeringen.se/49f088/contentassets/39759a0cb5234aa08340c7243e371908/barns-och-ungas-lasning–ett-ansvar-for-hela-samhallet-sou-201857.pdf

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