Como uma paixão pela literatura brasileira resultou em antologia com sete poetas na Argentina

Antologia tem publicação pela editora Bajo La Luna

Por José Pedro S.Martins

Uma paixão histórica pela literatura brasileira, encontros com livreiro e escritor no Rio de Janeiro, uma busca incessante por novas vozes da poesia, o interesse de uma editora argentina e finalmente a publicação em Buenos Aires, prevista para os próximos dias. Esta é a síntese da trajetória – marcada por fascínios mútuos pelo livro e em particular pelo ofício da poesia – que resulta na antologia Tejer & Destejer – 7 poetas contemporáneas del Brasil, que está sendo lançada na Argentina pela editora Bajo La Luna.

Poemas de Ana Martins Marques, Annita Costa Malufe, Claudia Roquette-Pinto, Izabela Leal, Josely Vianna Baptista, Lu Menezes e Simone Brantes foram selecionados e traduzidos pela escritora e poeta argentina Agustina Roca, que há anos conhece e ama a literatura brasileira. “Fundamentalmente, queria poéticas bem diversas entre si para mostrar essa amplitude, essa riqueza que caracteriza o universo poético brasileiro”, conta Agustina, em entrevista exclusiva para a revista Pé de moleque.

Ela relata como foi todo o processo de busca e identificação das poetas escolhidas e como foi o sempre difícil trabalho de tradução, que é si uma criação. Agustina mostra um grande respeito pelo universo poético feminino brasileiro, que para ela é uma base segura para a emergência de novas vozes, novas perspectivas estéticas. A entrevista deixa nítida a singularidade e beleza da visão e reflexão de Agustina sobre poesia. É uma verdadeira aula sobre essa nobre arte e sobre o desafio – e a extrema necessidade – que é a tradução, esse portal para novos saberes, fazeres e sentires.

A antologia, que sai em edição bilíngue, tem a apresentação de Susana Scramim, ensaísta, escritora e professora de Teoria Literária na UFSC. Susana já publicou, entre outros, Literatura do Presente (2007); Carlito Azevedo por Susana Scramim, coleção Ciranda da Poesia (2010). Com Marcos Siscar e Alberto Pucheu, os livros: O duplo estado da poesía (2015); Linhas de fuga: modernidade e contemporaneidade na poesía (2016). Com Luciana di Leone Ler Drummond hoje (2014). Pervivências do arcaico: a poesía de Drummond, Murilo Mendes e Cabral e sua sombra (2019).

Abaixo parte da entrevista com Agustina Roca, que prossegue na explicação (aqui) de seu encanto pela literatura brasileira:

Pé de moleque – Como foram escolhidas as poetas brasileiras para esta edição bilíngue?

Agustina Roca – No início de 2017 cheguei ao Rio de Janeiro por conta de uma questão de trabalho e fiquei quase um ano. Desde o final de 2015, sem saber que iria viajar, trabalhava na ideia de uma antologia de poetas brasileiros, com bastante dificuldade, pois não é fácil encontrar livros em português. Fiz buscas infernais em todas as mídias digitais do Brasil, tomei notas e mais notas, embaralhei nomes, investiguei e comecei a traduzir alguns poetas. Ao chegar ao Rio, vi um amigo, Alberto Berto, que trabalha na livraria Travessa em Ipanema. Contei a ele sobre o projeto e mostrei alguns dados que havia coletado. Ele me disse que a pessoa certa era Jorge Viveiros de Castro, editor da bela Editora 7Letras. Ele ligou para ele e marcou um horário. Curiosamente, a editora 7Letras fica ao lado dessa livraria, ou seja, 5 minutos depois eu estava conversando com o Jorge. Tudo parecia conspirar para me ajudar no meu trabalho. O encontro com Jorge marcou um antes e um depois nesta antologia. Trabalho com a literatura brasileira há décadas, mas na poesia, por exemplo, meu conhecimento chegou, segundo o que foi publicado na Argentina, à geração de Ana Cristina Cesar, ou Ana C., como dizem no Brasil. Ele me contou sobre os poetas mais jovens e ia me passando livros. Cena que se repetiu por muitos meses em sua editoria. Sou extremamente grata ao Jorge e recordo também, com fascínio, aqueles encontros por todo aquele universo poético que se abriu para mim, a alegria de descobrir, cheirar e tocar aqueles livros desconhecidos. A partir daí, uma segunda etapa começou, um trabalho muito complicado e solitário de ler material infinito para selecionar as poetas. Essa lista mudou constantemente ao longo dos meses. Enquanto isso, traduzia outras já sabia serem inamovíveis. Ele tinha vários cadernos, um com as listas de poetas, que foram permanentemente modificadas. Lembro-me disso como um trabalho muito meticuloso e difícil, com o qual estava obsessivamente comprometida. Porém, naquele ano, aquela busca que se ia tomando forma, ocupa um lugar luminoso na minha memória. Meses depois, tinha a maior parte das poetas selecionadas.

Pé de molequeQuais os principais critérios que você seguiu para a escolha das poetas?

Agustina Roca – Eu queria, principalmente, selecionar poetas nascidas entre os anos 60 e 70. Ou seja, que já tivessem publicado, ou tivessem definido amplamente sua profissão de poeta. Ou seja, eles tivessem sua própria voz. Posteriormente, essa premissa mudou, porque não queria deixar de fora da antologia uma poeta tão peculiar como Lu Menezes, ou Josely Vianna Baptista, que pertencem a outro segmento. Também queria uma seleção que abrangesse poetas de vários estados do Brasil. E, fundamentalmente, queria poéticas bem diversas entre si para mostrar essa amplitude, essa riqueza que caracteriza o universo poético brasileiro.

Pé de moleque Qual a sua opinião sobre a poesia brasileira feminina contemporânea?

Agustina Roca – É uma poesia muito rica, com poéticas muito diversas. São poetas de grande formação, grandes leitoras de poesia todas elas. Creio que este ponto, o da leitura insaciável, seja uma das bases para encontrar a própria voz naquele grande tear que se forma não só pela tradição poética brasileira mas também pelas tradições de todos os tempos. Porém, a poética brasileira, neste caso estamos falando de mulheres, do século XX é muito rica, desde Cecília Meireles, passando por Hilda Hilst, Olga Savary, Adélia Prado, para citar algumas dessa geração, até Ana Cristina Cesar e Ângela Melim. E eu nomeio essas duas últimas porque era o quão longe eu sabia quando comecei o projeto desta antologia. Poetas contemporâneas do Brasil, as que escrevem hoje, têm uma grande base para se inspirar. Por isso foi tão difícil para mim selecioná-las, eu adicionava um nome, removia, escolhia outra. Eu teria precisado de uma antologia com um número infinito de páginas. Ficaram de fora poetas muito singulares que, suponho, permanecerão para outra oportunidade. Também estava pensando em uma ensaísta que faria o prólogo. Começou outra busca por livros de ensaio e pela Internet. Eu me defini por Susana Scramim, que além de ensaísta é professora de Teoria Literária na Universidade de Santa Catarina e conhece bem a poética dessas mulheres.

Pé de moleque – Quais foram os desafios para a tradução? Uma tradução é sempre uma nova criação.

Agustina Roca – A tradução da poesia é, em si, um imenso desafio, por um motivo que existe esse mito, um tanto romântico e até arcaico, de que é impossível traduzir poesia. Acredito que seja absolutamente possível. Não sou néscia, nem acredito que o poeta seja um visionário, mas sem tradução, sem o trabalho de traduzir, não conheceríamos o universo de tantos poetas de diferentes línguas ao longo dos séculos. Claro, traduzir poesia traz seus riscos. Poesia se refere a algo que, em geral, está oculto, oculto até das palavras. Para traduzir o que não é dito no poema, mas está subjacente, é necessário ler um poema, uma e outra vez até conseguir habitar nele, decifrar seu ritmo, sua música, fazer anotações à margem, buscar informações complementares, embebedar-se da atmosfera, das circunstâncias em que a autora o escreveu, decifrar o seu tom e, finalmente, fazer o que faz o ator com um roteiro, incorporá-lo, pegá-lo, ficar obcecada com ele, falar com outra voz, dizer o estranho como se fosse seu. Cada verso oferece uma multidão de variantes e, no meu caso pessoal, tento ser fiel ao verso original. Sei que sou um instrumento, apenas uma ponte, para dar brilho ao poeta que traduzo. É verdadeiramente difícil traduzir poesia, e por sua vez é submergir em um universo fascinante, é uma viagem, é outra forma de escritura.

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