De Clarice e Lygia a Nélida, Rosa e Gullar: a literatura brasileira na Argentina, por Agustina Roca

Agustina Roca: amor pela literatura brasileira (Foto Acervo Pessoal Agustina Roca)

Uma ponte entre culturas e línguas, um portal para o conhecimento e respeito recíproco. A argentina Agustina Roca viveu no Brasil entre 1978 e 1984, período crítico da ditadura militar em seu país e momento de ensaio da chamada transição política brasileira até a redemocratização. Vivendo no Rio de Janeiro, onde continuava a escrever seus livros e colaborar com várias publicações culturais e manteve contato estreito com grandes nomes da literatura brasileira, que passou a amar cada vez mais. E a conhecer profundamente, mergulhada nos clássicos e nos autores contemporâneos. Com essa bagagem, tornou-se uma voz que une vozes, que busca o diálogo entre dois países tão próximos e às vezes tão distantes, por força de injunções políticas e sobretudo por preconceitos absurdos, devidamente cultivados por interesses mesquinhos.

Uma diplomata intercultural, assim poderia ser sintetizada a trajetória de Agustina em seu trabalho permanente de divulgação da cultura brasileira na Argentina e vice-versa. E sempre com muito talento e visão sofisticada, como mostrou na entrevista sobre a antologia de poetas brasileiras contemporâneas que selecionou e traduziu, com critérios muito peculiares, como contou em entrevista à revista Pé de moleque (aqui).

Na continuação dessa conversa, Agustina faz um resgate detalhado, com enorme riqueza de detalhes, de como tem sido a publicação, que poderia e pode ser muito mais ampla, da literatura brasileira na terra de Cortázar, Borges, Sábato e tantos outros expoentes da beleza da escrita. Um itinerário completo sobre a introdução da literatura brasileira na Argentina onde tanto se lê. Ela cita os pioneiros na tradução de brasileiros e relata a existência de um interesse cada vez maior, no âmbito da academia, pela literatura feita no Brasil. E destaca o trabalho de Bajo La Luna e outras editoras que cultivam uma atenção importante para a literatura brasileira e de outros países da América Latina, em um trabalho precioso de ampliação e consolidação do urgente intercâmbio multicultural no continente.

Mais Agustina Roca, que transborda o prazer de falar da literatura brasileira:

Pé de moleque – Você considera que a literatura brasileira em geral e a poesia em particular são bem conhecidas na Argentina?

Agustina Roca – Creio que existem muitas dificuldades entre os nossos dois países, tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes. Sempre pensei que, entre outras coisas, poderia ser devido à diferença de nossas línguas. Talvez o argumento seja um tanto simplista, mas há algo assim. Embora, nos últimos tempos, eu acho que está começando a ver uma maior proximidade literária entre os dois países. Eu sinto isso como um desejo, uma necessidade de me aproximar, de encontrar mais. Vou dar um exemplo dessas dificuldades que tivemos no encontro literário do Brasil e da Argentina. Para isso vou me referir aos anos 70, por exemplo, e às traduções que tivemos em nosso país. De Clarice Lispector tínhamos as traduções de Lazos de Familia (1973), Una manzana en la oscuridad (1974), Agua Viva (1975), traduzidas por Haydée Jofree Barroso para Sudamericana e pela mesma tradutora La araña en Corregidor (1977), La pasión según G.H., traduzida por el poeta argentino García Gayo en Monte Ávila, (Venezuela,1969). Do universo de Guimarães Rosa nos chegou Gran Sertón Veredas da Espanha na tradução do poeta Ángel Crespo por Seix Barral (1969) e Primeras Historias, Urubuquaqua, Noches del Sertón, com traduções de Estela dos Santos, em Seix Barral (1982/83). De Machado de Assis as traduções vieram do F.C.E. de Méjico, Memorias Póstumas de Blas Cubas (1976) e Las academias de Siam y otros cuentos. De Nélida Piñon, a poeta Ida Vitale traduziu Fundador em Emecé (1973) e Sala de Armas, Plus Ultra (1983). De Lygia Fagundes Telles, Estela dos Santos traduziu Las meninas em Sudamericana (1978). Depois veio algo do Autran Dourado e do Rubem Fonseca, mas já no final dos anos 80. Faço essa garimpagem para que entendamos que os livros traduzidos do Brasil para a Argentina nos anos 60/70 eram escassos, pequenas pérolas que apareciam de vez em quando, e algumas que vieram de outros países de língua espanhola. Posso ter sentido falta de alguns, menciono os que tenho na minha biblioteca, mas confesso que fui fanática, já escrevia sobre a literatura brasileira e tinha quase tudo que surgia no mercado literário.
A partir daquela década dos anos 70, na poesia, devemos muito a Santiago Kovadloff, ele morou e estudou no Brasil e, quando se conhecia muito pouco sobre a poesia brasileira, exceto por alguns nomes ou poemas individuais, produziu uma série de livros de poesia na Calicanto Editorial. Assim surgiram algumas pequenas antologias de livros coloridos, bonitos, modernos, onde fez os estudos introdutórios, as notas, muitas vezes a seleção de poemas, por vezes as traduções que partilhou, em geral, com Estela dos Santos e algum título com a poeta Rodolfo Alonso. Foi assim que conhecemos os poetas Meireles, Murilo Mendes, Drummond, Bandeira, Quintana. Ainda na mesma editora, em 1978 produziu a antologia bilíngue Las Voices Solidarias, onde escreveu um estudo sobre a poesia brasileira do século XX que estreou com Manuel Bandeira e terminou com a geração de poetas ditos “novos ou muito novos” que incluiu os nascidos entre os anos 30 e 40. Antes, havia produzido Poesia Contemporânea do Brasil, antologia que chegou a Ferreira Gullar em coleção dirigida por Aldo Pellegrini na Fabril Editora (1972). Em 1967 saiu na Editorial Losada (1967) a primeira antologia Mundo, vasto mundo, de Carlos Drummond de Andrade. E dois títulos de Vinícius de Moraes no Ed. De la Flor em 1968 e 1969.
Na década de 1980 foi inaugurada a cadeira de literatura luso-brasileira na UBA, o primeiro professor catedrático foi Wagner Novães, que também foi diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Rua Esmeralda. Novães fez um grande trabalho nesses anos na divulgação de autores brasileiros desses dois espaços.
Por volta de 2000, a Ediciones Corregidor inaugurou a coleção Vereda Brasil, dirigida por Florencia Garramuño, Gonzalo Aguilar e a brasileira M. Antonieta Pereira, dedicada à publicação de autores clássicos e contemporâneos da literatura brasileira. Seu desejo baseava-se em preencher uma lacuna no mercado editorial de língua espanhola e também atender à demanda acadêmica por cátedras de literatura brasileira e latino-americana.
Em 2003 foi feita a antologia Puentes / Pontes, grande compilação bilíngue de poesia brasileira e argentina, compilada por Heloísa Buarque de Holanda e Jorge Monteleone respectivamente, com a colaboração de muitos tradutores dos dois países, na Argentina Teresa Arijón dirigiu este trabalho. Esta antologia que, creio, marcou um antes e um depois é, como o seu título indica, uma excelente ponte, uma oportunidade de aprender sobre a poética dos dois países. Foi publicado pelo Fondo de Cultura Económica.
Existem também outras editoras que se preocupam e divulgam muitos títulos de autores brasileiros como Eterna Cadencia, Cuenco de Plata, Adriana Hidalgo, Bajo la luna, Leviatán, entre outras.

Com este panorama dos últimos anos, indico que temos avançado muito desde as décadas de 60 e 70, quase desérticas no nosso conhecimento das letras brasileiras, onde um título brasileiro era um pequeno cometa que caía de vez em quando.

Quando começou seu interesse pela literatura e poesia brasileiras?

Morei no Brasil entre 78 e 84. Descobri um país fascinante, com sua música, sua literatura, seu brilho, sua gente. Eu o amei, e o amo, muito, nunca saí completamente do Brasil, sempre que posso viajo para lá. Eu falava das traduções de Kovadloff para o português, ele trabalhava nos anos 80 no suplemento cultural do Clarín. Ele largou aquele emprego e eu fui ocupar aquele lugar. A primeira notícia que escrevi foi um extenso relatório sobre Nélida Piñon com tradução. Conheci a escritora carioca por meio dessa reportagem e ela, uma grande divulgadora da literatura brasileira, me ajudou muito naquela época, me apresentando a poetas, ensaístas, contadores de histórias para que eu pudesse entrevistar e traduzir suas obras. Meus artigos sobre autores brasileiros foram uma constante no suplemento cultural do Clarín. Depois conheci o Wagner Novães e, através dele, comecei a traduzir muitos autores, uns para a cátedra da UBA, outros para o Centro de Estudos Brasileiros que dirigia. E assim meu trabalho sobre o Brasil começou a se espalhar em diferentes mídias na Argentina e também no Brasil porque publicaram meus poemas em jornais de lá e minhas traduções.
Durante a crise econômica de 2001, tive que deixar meu país e me instalei em Madrid. Lá comecei a dar cursos de literatura brasileira. Ou seja, tenho um amor, uma paixão pelo Brasil, que nunca se extinguiu, mas que continua se renovando. Estou sempre atualizada sobre todos os aspectos do que está acontecendo no Brasil. Quero agradecer aos editores da Bajo la luna, Valentina Rebasa e Miguel Balaguer, por terem acreditado e apostado, num momento tão difícil como vivemos, neste projeto. Bajo la luna é uma das melhores editoras de poesia (talvez a melhor), eles também publicam alguma prosa. Como editora dá uma cunho indiscutível, foi fundada pela mãe de Miguel, Mirta Rosenberg, uma grande poeta e tradutora da minha geração que, infelizmente, já não está entre nós, embora Miguel e Valentina continuem o seu sonho mais do que qualquer outra coisa.

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